Em meio às tensões no Oriente Médio; alta acumulada chega a R$ 1,51 por litro desde 27 de fevereiro
O preço médio do Diesel S10 no Brasil atingiu R$ 7,15 por litro nesta quarta-feira (19). O valor representa uma alta acumulada de R$ 1,51 por litro em relação ao preço base de R$ 5,64 registrado em 27 de fevereiro, o equivalente a um avanço de 26,7% em 20 dias.
A alta ocorre em meio ao avanço das tensões no Oriente Médio, em um momento de maior atenção do setor de transporte sobre os custos operacionais ligados ao combustível.
Dados constam no Painel do Transporte, plataforma digital lançada pela MundoLogística. O painel acompanha diariamente a evolução do combustível com foco no Diesel S10 e apresenta o valor médio nacional atualizado, além de uma série histórica recente que permite observar a intensidade das oscilações em curtos intervalos de tempo.
Na comparação diária, o indicador mostra uma trajetória de alta ao longo do período monitorado. Em 27 de fevereiro, o preço médio estava em R$ 5,64 por litro. Em 10 de março, passou para R$ 6,58, avançou para R$ 6,97 em 17 de março, chegou a R$ 7,07 em 18 de março e atingiu R$ 7,15 por litro em 19 de março (até às 15h28).
PREÇOS DO DIESEL POR ESTADO E REGIÃO
Além da média nacional, o painel também detalha o comportamento dos preços por estado e região. Entre os estados exibidos, os maiores valores registrados em 19 de março foram observados no Distrito Federal, com R$ 7,69 por litro, seguido por Acre (R$ 7,61), Tocantins (R$ 7,53), Bahia (R$ 7,39) e R$ 7,38 em Goiás.
No recorte de variação acumulada percentual, o maior avanço entre os estados listados foi identificado em Tocantins, com alta de 34,1% no período, seguido por Bahia (+31,1%), Goiás (+30,2%) e Distrito Federal (2+9,5%).
No Sul, o Paraná registra o maior preço entre os estados monitorados da região, com R$ 7,73 por litro. No Sudeste, Minas Gerais aparece com R$ 7,28. No Centro-Oeste, o maior valor é do Distrito Federal, com R$ 7,69. No Norte, o Acre marca R$ 7,61, enquanto, no Nordeste, a Bahia registra R$ 7,39 por litro.
GUERRA NO ORIENTE MÉDIO E O IMPACTO NO TRANSPORTE DE CARGAS
A alta recente do Diesel S10 no Brasil ocorre em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio, que pressiona o preço do petróleo no mercado internacional e já começa a gerar reflexos sobre a logística nacional.
Segundo o especialista em Supply Chain da Peers Consulting + Technology, Marcelo Ikaro, os impactos podem aparecer tanto na importação de insumos quanto no transporte de produtos finais dentro do país. No caso dos insumos, o Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome e 15% da gasolina, o que aumenta a sensibilidade do país às variações no preço internacional da energia.
“Além disso, a logística portuária sofre com o descasamento de escalas, já que navios globais estão sendo desviados para rotas mais longas (via Cabo da Boa Esperança), aumentando o lead time de importação de componentes eletrônicos e químicos em 10 a 15 dias”, disse em entrevista à MundoLogística.
Já no mercado interno, o impacto tende a aparecer principalmente no transporte rodoviário, altamente dependente do diesel. “O custo do frete por quilômetro rodado tende a subir proporcionalmente à alta do diesel. Estimamos que, para cada 10% de aumento no preço do combustível, o custo do frete rodoviário sobe entre 3,5% e 4,8%, dependendo do tipo de carga e da distância”, apontou o especialista.
Na prática, os efeitos mencionados por Ikaro já começam a aparecer no mercado doméstico. Em artigo publicado na MundoLogística, o especialista em combustível do Gasola by nstech, Vitor Sabag, afirmou que março começou pressionando diferentes elos da cadeia, de frotistas a distribuidoras.
De acordo com o especialista, o cenário é marcado por altas em refinarias privadas, maior custo do diesel importado e aumento da defasagem em relação ao mercado internacional.
“Para o transporte rodoviário, isso aparece rápido no caixa: sobe o custo do frete, apertam as margens e cresce a necessidade de renegociar gatilhos de reajuste para não operar no vermelho. Nas próximas semanas, o mercado deve seguir sensível ao cenário externo e ao câmbio, e qualquer movimentação (ou manutenção) da Petrobras pode mudar o ritmo dessa pressão”, disse.
ABOL SE POSICIONA
Diante do aumento do combustível, a Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) reforçou a importância de "uma solução pacífica e diplomática para a crise", ressaltando a importância da atuação dos operadores logísticos na economia.
Leia a nota na íntegra:
A Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) vem a público manifestar sua preocupação com o agravamento do conflito no Oriente Médio e reforçar a importância de uma solução pacífica e diplomática para a crise, diante de seus efeitos humanitários, sociais e econômicos, em âmbito global. A intensificação das tensões na região não afeta apenas os países diretamente envolvidos, mas gera desdobramentos nas cadeias produtivas e no cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo.
Na logística, a elevação expressiva do preço internacional do petróleo nos últimos dias tem pressionado o *custo do diesel e de outros combustíveis* essenciais ao transporte e à movimentação de cargas, em todas as regiões do país. Caso o cenário persista, os efeitos tendem a se intensificar, com reflexos diretos sobre os fretes e, consequentemente, sobre a inflação e o Custo Brasil.
Nesse contexto, destaca-se que os Operadores Logísticos (OLs) desempenham papel essencial na economia, ao integrar atividades de transporte (por qualquer modal), armazenagem e gestão de estoques, atendendo a praticamente todos os setores produtivos. São responsáveis por viabilizar o abastecimento da população, a fluidez do comércio exterior, a distribuição de medicamentos e vacinas, o escoamento do agronegócio e o suporte contínuo às indústrias. No entanto, é um segmento que há muitos anos opera, em muitos casos, com margens reduzidas, fortemente pressionadas por custos com combustíveis, que podem representar até 40% das despesas operacionais totais. Diante da elevada sensibilidade do insumo às oscilações do mercado internacional, é importante que todos os elos que se conectam ao Operador Logístico — desde fornecedores e parceiros até os clientes e a sociedade em geral — compreendam os desdobramentos e impactos já sentidos nos custos dessas empresas, e que, inevitavelmente, refletem-se nos fretes e preços dos serviços logísticos.
Nesse sentido, é essencial que as medidas temporárias já adotadas pelo governo brasileiro para mitigar esse cenário sejam efetivamente cumpridas por toda a cadeia de abastecimento, a partir da isenção das alíquotas de PIS e COFINS sobre a comercialização e importação do óleo diesel e da criação de subvenção econômica para produtores e importadores de combustível¹. A cada dia, Operadores Logísticos relatam defasagens e assimetrias no repasse desses benefícios até os postos de combustível, o que indica que a redução esperada não tem se concretizado. Como resultado, novamente, observa-se uma elevação contínua dos custos operacionais dos OLs, com impactos diretos não apenas sobre os fretes, mas também na própria eficiência das operações. Soma-se a isso a preocupação com possíveis paralisações de caminhoneiros e aumento do piso mínimo do frete, recentemente atualizado em função do aumento do diesel².
Levantamento interno da ABOL, realizado nesta semana, confirma o cenário: todos os associados respondentes já identificam aumento no preço do diesel em todas as cinco regiões do país. Alguns já enfrentam dificuldade de abastecimento, a exemplo de Santa Catarina. Em média, o aumento geral percebido é de 20%, alcançando patamares mais elevados em localidades como: Rio de Janeiro (até 50%), Bahia (30%), Santa Catarina (até 35%) e São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul (até 25%)³. Outros combustíveis, como o bunker (marítimo) e o QAV (aéreo), também registram elevações preocupantes.
Diante desse cenário, a ABOL reafirma seu compromisso com a estabilidade do setor, atuando de forma colaborativa para preservar a continuidade dos serviços logísticos e mitigar efeitos sobre clientes, cadeias produtivas e a sociedade brasileira. A Associação permanece à disposição para contribuir tecnicamente com o aprimoramento das medidas em curso, na expectativa de que seus efeitos se materializem com efetividade e que a eficiência do setor logístico seja devidamente preservada.
Marcella Cunha, diretora-executiva da ABOL
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